quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Dias e noites










AFONSO DE CARVALHO





Dias e noites


Os dias e noites são de uma tepidez mortal, e dias assim não convidam a pensar. Há uma exaUstão de ferro candente sobre as coisas do mundo, sobre a terra e sobre as águas, e os nossos corações sofrem as angústias de todos os tormentos das horas perdidas, as horas que não pudemos viver. É Novembro que se aproxima, amor. Bem sabes, querida, que este pode-ria ser um mês de alegrias, em que cantássemos aleluias de ressurreição, um mês em cujo inicio eu estaria te ofertando poemas de amor, em surdina, somente para as teus sentidos ou-virem, apenas para o teu coração comover. Não será assim, todavia, anjo meu. Para mim, o mês que se aproxima é uma quadra de recordações, e eis que me perco a meditar, não pen-sando nas glórias da existência, que não as quero, mas em ti, amor imortal, em ti somente. Que será de nós, amanhã? Pensamentos, palavras, emoções, tudo gira em torno de tua mara-vilhosa pessoa, tu, que és única, que és insubstituível, que estás presente em todas as minhas horas vazias, como uma obsessão e como uma loucura de que não me quero curar, para a qual não há remédio. Farei versos a ti. Novembro se aproxima, e com ele, e durante ele, meu velho coração não terá outro destino: só tu o ouvirás, só contigo ele estará. Ninguém mais.

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