quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Memória de Maurício Grabois

Memória de Maurício Grabois

Jorge Amado


Primeira Edição: ....
Fonte:
Fundação Maurício Grabois
Transcrição:
Diego Grossi

Entre os muitos dirigentes comunistas com quem tratei durante meus anos de Partido, Maurício Grabois foi um dos daqueles a quem me liguei por laços mais profundos do que os da luta política, da militância. Além de companheiros, fomos amigos. Quero dizer com isso, que nosso relacionamento, diário durante algum tempo, não se reduzia aos limites das circunstâncias partidárias, gostávamos de estar juntos, conversar fora das reuniões, falar de temas que não tinham que ver com as tarefas recebidas e cobradas. Maurício era verboso, falava muito — quando o conheci, ainda bem jovem, seu apelido era Vitrola —, mas sabia ouvir, hábito raro em geral e ainda e mais num dirigente.
De Maurício, podia-se divergir sem receio de ofender a disciplina partidária. O culto à personalidade, tão ao gosto da época, ele não o praticava ao menos no que se referia a sua própria figura: membro da Comissão Executiva era, no trato, o igual de qualquer modesto militante. Essa falta de presunção, eis uma das coisas que eu mais presava nele. Outra era a capacidade de duvidar, de querer saber de fato, tirar a limpo, num tempo em que a dúvida não era permitida, era mal-vista, quase sinônimo de falta de firmeza, senão de coisa pior. Talvez por ser judeu, Maurício tinha o gosto da dúvida e acontecia-lhe provocar a discussão, estender-lhe os limites, colher matéria para reflexão. Não sei se era bom teórico ou não, jamais consegui entender, muito menos julgar, tais categorias. O que sei é que em Maurício havia uma certa sensibilidade, um calor humano que o espírito de seita, tão terrivelmente limitador, não conseguia destruir. Fui testemunha, por mais de uma vez, do preço que pagava por não ser estreito.
Fui seu colega de bancada na Constituinte em 1946 e na Câmara Federal, em 1947. A meu ver, Maurício era, de todos nós, o de maior vocação parlamentar, um brilhante deputado. Não da mesma forma que era brilhante Mariguela: diferente, menos zombador, mais malicioso. Recordo ainda hoje um discurso que Maurício pronunciou às vésperas da cassação da bancada comunista, respondendo a Flores da Cunha que nos acusara de traidores da Pátria. Um primor de discurso, de exemplar dignidade.
Trabalhei com ele na ilegalidade — Maurício foi responsável pelos assuntos culturais —, muito discutimos e nos batemos, sobretudo em determinado tempo quando o horizonte ideológico ficara extremamente reduzido. Surpreendi-me mais de uma vez ao saber que Maurício defendera junto a seus pares da Comissão Executiva, ponencias e posições que não correspondiam por inteiro à ortodoxia imperante.
Era alegre, outra qualidade. Não cultivava o ar soturno, a caratonha de tromba, características daqueles idos. Recordo de tê-lo visto triste, acabrunhado, apenas uma vez. Chegava de Moscou onde o relatório de Kruchov ao XX Congresso do PCUS incendiava o mundo. Maurício veio ver-me em minha casa no Rio; estava ferido, eu já disse. Conversamos uma tarde inteira, conversa a “batons rompus”, ao sair ele confirmou: “eu vou em frente, haja o que houver!”
A última vez que o vi, foi em Cuba. Veio comentar comigo uma entrevista que eu dera a um jornal de lá. Depois vieram os anos da ditadura militar, eu soube de Maurício apenas notícias vagas, até que alguém me informou que ele morrera, numa guerrilha, no Araguaia. Eu sempre vira nele mais um intelectual do que um soldado. Mas não admirei que morresse guerrilheiro: escolhera seu caminho e o trilhou até o fim. Haja o que houver, me disse um dia.
 
 

sexta-feira, 27 de junho de 2014

terça-feira, 24 de junho de 2014

NA INAUGURAÇÃO

A multidão que assistia do lado de fora a entrada dos convidados à inauguração viu chegar Raul de Azevedo e sua esposa, Sara. O casal ficou a passear nos jardins do teatro antes de entrar, pois o escritotor aproveitou para fumar.
 A seguir apareceram Afonso de Carvalho, a esposa e alguns amigos. Era um grupo animado. Entraram logo.
 Logo veio Joaquim Cardoso Ramalho Junior, com o filho (a esposa adoentada não veio). Mas quando apareceu Erico de Aguiar Picanço todas as pessoas que assistiam a entrada exclamaram um “oh!” de surpresa e admiração, pois Esmeralda Picanço portava as suas famosas esmeraldas: era um colar e brincos de esmeraldas e diamantes famosos na alta sociedade manauara, realçados pelo belo pescoço e o vestido de seda preta de sua dona. O vestido não tinha nenhum bordado nem enfeite. As esmeraldas e brilhantes iluminaram a entrada.
 
 E assim foram chegando os convidados, que era elite do Norte do Brasil. Um dos últimos a chegar foi o Governado Fileto Pires Ferreira, com a esposa. E o último o ex-governador Eduardo Gonçalves Ribeiro, aplaudido pelo povo que estava na rua, desprezado pelos convidados de dentro. Eduardo Ribeiro, como sempre, veio com uniforme militar, acompanhado por dois soldados. Entrou rapidamente, atravessou o hall sem cumprimentar ninguém, subiu as escadarias com velocidade e sumiu no camarote. Os dois soldados não entraram, ficaram de guarda, na porta. 
 
 O Teatro ainda não estava ainda totalmente pronto. No “Salão Nobre”, em taças de cristal, servia-se o champanha La Grand Dame Veuve Clicquo. E se fazia política, conspirava-se. Conspirava-se contra o Governador Fileto Pires Ferreira, que já estava no camarote do Governo, conspirava-se contra Eduardo Ribeiro, que se escondera na penumbra.  Em sussurros, no pé do ouvido, algumas figuras diziam: “- Fileto vai viajar para Paris...”
 - Agora que Fileto e o negro estão rompidos é hora de agir, disse o outro.
 
 No início do espetáculo falou o Governador Fileto Pires Ferreira, do alto do seu camarote central. Grande orador, inflamado, de improviso, inaugurou o Teatro. Seu discurso foi recebido friamente pela elite que já conspirava contra ele. E embora tivesse de relações rompidas com o ex-governador, anunciou:
 
 - Temos a satisfação de ver entre nós o grande realizador da obra, o construtor deste imponente Teatro, o Governador Eduardo Ribeiro.
 
Neste momento irrompeu uma grande vaia, vinda de todos os lados.
(ROGEL SAMUEL. TEATRO AMAZONAS)

quinta-feira, 19 de junho de 2014

MÚSICA PARA A COPA

 
 
EM HOMENAGEM À COPA DO MUNDO O PIANISTA CHRISTOPHER SCHINDLER DE PORTLAND POSTOU UM NOVO AUDIO CLIP DE VILLA-LOBOS GRATUITO, OUÇA EM:

http://www.christopherschindler.com/audio_clips

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 In recognition of the World Cup going on currently in Brazil, my website has a new audio clip of the week.

http://www.christopherschindler.com/audio_clips

Enjoy listening to this musical interlude and have a nice day.

Christopher Schindler
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terça-feira, 10 de junho de 2014

ABERTURA DA COPA E A INAUGURAÇÃO DO TEATRO AMAZONAS

ABERTURA DA COPA E A INAUGURAÇÃO DO TEATRO AMAZONAS
 
ROGEL SAMUEL
 
 
Quando o Teatro Amazonas foi inaugurado em dezembro de 1896 ainda não estava pronto, o entorno estava cheia de obras, e as damas chics tinham de levantar as saias para salvá-las da lama.
E mais: a feroz oposição da época tratou de combater o brilho do evento, dizendo que aquela cúpula era ridícula, que nunca se tinha visto coisa igual no mundo inteiro, e que ia ser retirada; diziam que a construção tinha sido superfaturada, e que Eduardo Ribeiro tinha virado um “nababo”, que tinha roubado e estava milionário (Rui Barbosa disse isso) e – o que era mais grave – que o teatro tinha sido mal construído e que por isso ia desabar (muita gente não apareceu no dia da inauguração com medo por causa disso).
Consta que o governador Eduardo Ribeiro foi vaiado na noite inaugural.
Ele já tinha passado o governo para Fileto Pires Ferreira (que o inaugurou). Fileto foi vítima de um golpe de estado: viajou para tratar-se na Europa e inventaram uma “carta de renúncia”.
Eduardo Ribeiro sofreu do preconceito de ser negro (como Lula de operário nordestino e como Dilma de mulher guerrilheira).
Para encerrar a trajetória do nosso Teatro, o meu romance TEATRO AMAZONAS, que conta a sua construção, está on-line em:
http://teatroamazonas.blogspot.com.br/