sexta-feira, 27 de junho de 2014

terça-feira, 24 de junho de 2014

NA INAUGURAÇÃO

A multidão que assistia do lado de fora a entrada dos convidados à inauguração viu chegar Raul de Azevedo e sua esposa, Sara. O casal ficou a passear nos jardins do teatro antes de entrar, pois o escritotor aproveitou para fumar.
 A seguir apareceram Afonso de Carvalho, a esposa e alguns amigos. Era um grupo animado. Entraram logo.
 Logo veio Joaquim Cardoso Ramalho Junior, com o filho (a esposa adoentada não veio). Mas quando apareceu Erico de Aguiar Picanço todas as pessoas que assistiam a entrada exclamaram um “oh!” de surpresa e admiração, pois Esmeralda Picanço portava as suas famosas esmeraldas: era um colar e brincos de esmeraldas e diamantes famosos na alta sociedade manauara, realçados pelo belo pescoço e o vestido de seda preta de sua dona. O vestido não tinha nenhum bordado nem enfeite. As esmeraldas e brilhantes iluminaram a entrada.
 
 E assim foram chegando os convidados, que era elite do Norte do Brasil. Um dos últimos a chegar foi o Governado Fileto Pires Ferreira, com a esposa. E o último o ex-governador Eduardo Gonçalves Ribeiro, aplaudido pelo povo que estava na rua, desprezado pelos convidados de dentro. Eduardo Ribeiro, como sempre, veio com uniforme militar, acompanhado por dois soldados. Entrou rapidamente, atravessou o hall sem cumprimentar ninguém, subiu as escadarias com velocidade e sumiu no camarote. Os dois soldados não entraram, ficaram de guarda, na porta. 
 
 O Teatro ainda não estava ainda totalmente pronto. No “Salão Nobre”, em taças de cristal, servia-se o champanha La Grand Dame Veuve Clicquo. E se fazia política, conspirava-se. Conspirava-se contra o Governador Fileto Pires Ferreira, que já estava no camarote do Governo, conspirava-se contra Eduardo Ribeiro, que se escondera na penumbra.  Em sussurros, no pé do ouvido, algumas figuras diziam: “- Fileto vai viajar para Paris...”
 - Agora que Fileto e o negro estão rompidos é hora de agir, disse o outro.
 
 No início do espetáculo falou o Governador Fileto Pires Ferreira, do alto do seu camarote central. Grande orador, inflamado, de improviso, inaugurou o Teatro. Seu discurso foi recebido friamente pela elite que já conspirava contra ele. E embora tivesse de relações rompidas com o ex-governador, anunciou:
 
 - Temos a satisfação de ver entre nós o grande realizador da obra, o construtor deste imponente Teatro, o Governador Eduardo Ribeiro.
 
Neste momento irrompeu uma grande vaia, vinda de todos os lados.
(ROGEL SAMUEL. TEATRO AMAZONAS)

quinta-feira, 19 de junho de 2014

MÚSICA PARA A COPA

 
 
EM HOMENAGEM À COPA DO MUNDO O PIANISTA CHRISTOPHER SCHINDLER DE PORTLAND POSTOU UM NOVO AUDIO CLIP DE VILLA-LOBOS GRATUITO, OUÇA EM:

http://www.christopherschindler.com/audio_clips

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 In recognition of the World Cup going on currently in Brazil, my website has a new audio clip of the week.

http://www.christopherschindler.com/audio_clips

Enjoy listening to this musical interlude and have a nice day.

Christopher Schindler
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terça-feira, 10 de junho de 2014

ABERTURA DA COPA E A INAUGURAÇÃO DO TEATRO AMAZONAS

ABERTURA DA COPA E A INAUGURAÇÃO DO TEATRO AMAZONAS
 
ROGEL SAMUEL
 
 
Quando o Teatro Amazonas foi inaugurado em dezembro de 1896 ainda não estava pronto, o entorno estava cheia de obras, e as damas chics tinham de levantar as saias para salvá-las da lama.
E mais: a feroz oposição da época tratou de combater o brilho do evento, dizendo que aquela cúpula era ridícula, que nunca se tinha visto coisa igual no mundo inteiro, e que ia ser retirada; diziam que a construção tinha sido superfaturada, e que Eduardo Ribeiro tinha virado um “nababo”, que tinha roubado e estava milionário (Rui Barbosa disse isso) e – o que era mais grave – que o teatro tinha sido mal construído e que por isso ia desabar (muita gente não apareceu no dia da inauguração com medo por causa disso).
Consta que o governador Eduardo Ribeiro foi vaiado na noite inaugural.
Ele já tinha passado o governo para Fileto Pires Ferreira (que o inaugurou). Fileto foi vítima de um golpe de estado: viajou para tratar-se na Europa e inventaram uma “carta de renúncia”.
Eduardo Ribeiro sofreu do preconceito de ser negro (como Lula de operário nordestino e como Dilma de mulher guerrilheira).
Para encerrar a trajetória do nosso Teatro, o meu romance TEATRO AMAZONAS, que conta a sua construção, está on-line em:
http://teatroamazonas.blogspot.com.br/
 
 

sexta-feira, 6 de junho de 2014

LUA - A MORTE DE ELPENOR

 

A MORTE DE ELPENOR
 
LEDO IVO
 
Os bordéis de Maceió iluminam a minha adolescência.
Consiero um dos maiores privilégios de minha vida ter sido admintido neles numa idade juvenil. Era à tarde que eu os freqüentava, e chegava quase sempre no instante em que as putas, recém-saídas do banho, se debruçavam castamente nas varandas diante do mar e contemplavam os navios. Ao cheiro de jasmin evolado de seus corpos morenos se misturava a maresia embriagadora.
Num desses prostíbulos, situados no andar superior de velhos sobrados que também abrigavam armazéns de açúcar e bodegas de fundos escurecidos, ocorreu a morte de um marinheiro, um certo Elpenor.
Ao contrário do que diz Homero, Elpenor não caiu do teto do palácio de Circe. Completamente bêbado, rolou pela escada do bordel de Maceió e quebrou o pescoço. Sua alma baixou ao Hades.
Esse lamentável acidente me privou, naquela tarde, do prazer habitual de respirar, junto às putas da minha cidade, o cheiro de jasmin que se casava, como um doce e longo coito regido pelo mormaço, a todos os perfimes do Oceano. 
Lêdo Ivo
Do livro: "Mar Oceano (1983 - 1987), in Poesia Completa 1940 - 2004, Topbooks, 2004, RJ
 

 

quinta-feira, 5 de junho de 2014

FALO DAS RUAS

 
"Algum Sentido "

Não falo das torres altas, das torres engradeadas,
isolado nas alturas, olhando tudo distante,
sem a exuberância, sem os detalhes insignificantes
que são as grandezas trágicas da vida...

Não estou longe, não sou reflexo, não sou eco,
não sou um som perdido que ninguém sabe a origem...

Sou a boca que grita, a boca que pronuncia o som,
a mão que se eleva, não o gesto irreconhecível,
o coração que bateu, não a pulsação anônima,
a alma que luta, não o espírito que se acovardou
num canto introvertido...

Não falo do meu quarto fechado onde me tranquei a sete chaves
para não ouvir a algazarra dos tempos,
e a agitação das ruas,
nem receio descer os degraus que me levam à multidão
porque em verdade a nossa revolta não tem degraus!

Não temo as suas explosões porque seus estilhaços nunca me ferirão
nem atingirão nunca os que tiverem coragem de ser justos
e os que não se atropelam com a própria consciência...

Falo das ruas e das praças, estou perdido no meio da multidão,
não tenho medo porque eu sou ela e porque ela está em mim,
seu corpo fala pela minha voz na hora da compreensão
sinto a responsabilidade de falar em nome de seu destino...

Não me fechei na torre alta, isolado e indiferente,
meus pés estão no chão sei que
todas as torres altas, ante a avalanche dos tempos
se destruirão...
    
( Poema de JG de Araujo Jorge do livro
- Antologia Poética Vol. II - 1a ed. 1978 )