sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

O EXERCÍCIO DO OFÍCIO 3

o exercício do ofício 3



TERCEIRO. Muito
de mel e com trigo
posto
e dado
e o sorriso, ambiquerido


rogel samuel 


(Na foto: Nijinski, autoria desconhecida)

sábado, 14 de janeiro de 2012

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Os judeus na Amazônia

Os judeus na Amazônia
Rogel Samuel

Li “Eretz Amazônia – os judeus na Amazônia”, de Samuel Benchimol, para encontrar-me.
Minhas raízes judaicas.
Quando eu era jovem, na faculdade, aqui no Rio de Janeiro, meu apelido era “Judeu errante”.
Nem sei por quê.
O livro me foi enviado por uma grande amiga. Li-o com avidez, leitura fácil, agradável, Samuel Benchimol (1924-2002) era um bom escritor, além de pesquisador cultíssimo e professor catedrático.
Eu já o tinha muito lido, principalmente aquele seu extraordinário “Amazônia”, que amplamente usei na construção do meu romance “O amante das amazonas”.
E o conheci de vista, quando ele ainda morava na Rua 10 de julho, e jogava xadrez no “Luso” com meu irmão.
Li “Eretz Amazônia” para encontrar-me, ainda que não seja judeu, mas neto de judeu. Só é judeu filho de mãe judia, ou aquele que se converteu.
Minha amiga e escritora Bella Josef (1926-1910) um dia me convidou para aderir ao grupo, mas eu agradeci, estou muito velho para mudar.
E encontrei ali o meu avô Maurice Samuel em vários lugares do livro, principalmente no ”Boom do ciclo da Borracha”, da página 117, ao lado dos Levy, dos Kahn etc., homens empreendedores e muito ricos, todos franceses e alsacianos, como meu avô (Marius & Levy edificaram o edifício dos Correios, na esquina da Av. Eduardo Ribeiro o mais alto da cidade).
O escritório de meu avô ficava na rua Marcílio Dias, onde hoje está o Hotel Amazonas.
Ficava lá. E no meu coração.
Ele era dono do navio Adamastor, cuja figura se encontra no meu livro.
Faleceu na pobreza, no ano em que nasci: 1943.

sábado, 17 de dezembro de 2011

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

O FOGO DA LABAREDA DA SERPENTE


O FOGO DA LABAREDA DA SERPENTE

Por

Neuza Machado

Manifestado à moda dos lendários heróis de misteriosas histórias de cerimônias e cultos diversos, Paxiúba é a encarnação mítico-ficcional de antigos guardiões extravitais (de qualquer arcabouço esotérico da humanidade, humanidade esta quase sempre conduzida por elementos das forças sobrenaturais), os quais povoaram, ao longo do tempo, a poderosa imaginação reduplicada, sintagmática, do mundo dos conceitos veneráveis. Paxiúba se configura como o símbolo das forças da natureza selvagem do Amazonas (no caso, o estrato mítico-substancial da sociedade indígena amazonense), e, acima de sua aparência exterior, a matéria épica se faz presente no relato ficcional, realçando o prestígio prosopopaico de sua natureza humana.
 Se me encontro aqui como apreciadora de obra ficcional da pós-modernidade, envolta em minhas próprias teorizações analítico-fenomenológicas sobre um assunto no qual eu mesma me alterco constantemente, confirmo que em O Amante das Amazonas há um altíssimo grau de entropia no sistema de narração (ausência da ordem narrativa à moda tradicional). Para explicitar o seu personagem mítico-ficcional Paxiúba, o criador pós-modernista de Segunda Geração se vale dos enclaves narrativos, tão do gosto dos escritores pós-modernos/pós-modernistas da Primeira Geração. Entretanto, enquanto autor-criador de um novo direcionamento estético-ficcional, mais de acordo com a vivência do homem do século XXI, objetivou abandonar o estereótipo (lugar comum) do personagem reificado (inacreditável, fantasioso) da primeira fase, procurando descortiná-lo por meio de um olhar diferenciado (o ser mítico a se transformar em humano), circunscrito a insólitos acontecimentos dinamizados. (Preciso esclarecer que os escritores do final do século XX, dos anos 80 para cá, perceberam as qualidades intrínsecas das regras sócio-culturais do século XXI, e, por sua vez, como participante ativo daquele momento, o narrador rogeliano enxergou criativamente a mudança que já se avizinhava).
 


A entropia narrativa, no século XX, surgiu das pioneiras modalidades sócio-culturais capitalistas, intermediárias de uma novíssima ciência, baseada em um conjunto de métodos científicos, de novas modalidades existenciais que visavam resolver os problemas do homem pós-moderno. Fundamentado-se em normas predominantemente científicas e em transmissões de notícias generalizadas oferecidas pelos meios de comunicação em evidência naquele momento (rádio, televisão e cinema), as mensagens saíam de uma realidade cotidiana, poderosa, mas que já chegavam descaracterizadas aos destinatários, propiciando espetáculos insólitos. Assim, a técnica discursiva da propaganda impôs suas diretrizes no universo ficcional da pós-modernidade, naquela Primeira Geração de escritores ficcionistas, obrigando-os a “criar” seus textos ─ sintagmáticos ou paradigmáticos ─ pelo ponto de vista de uma realidade liquidificada, reduzida a diversas cópias (ou colcha-de-retalhos, ou patchwork quilt) de conceitos vitais diversificados e entrelaçados, conceitos esses vistos pelos críticos da literatura do final do século XX como simulacros de uma realidade há muito despojada de suas características fundamentais.
No entanto, mesmo existindo entropia narrativa em O Amante das Amazonas, ou seja, os enclaves se entrelaçando e se justapondo ao longo dos parágrafos, não há trechos inacabados e indefinidos, como vários críticos observaram em algumas narrativas ficcionais de alguns escritores da Primeira Geração Pós-Moderna/Pós-Modernista. Nas duas dimensões ficcionais sintagmáticas do Manixi ─ histórica e mítica ─, além da linguagem da comunicação visual, comumente sempre detectada nas narrativas do pós-modernismo da primeira fase, há, no decorrer narrativo, uma razão diferenciada que busca um final compensador, equilibrado, ou seja, ressalta-se a provocação subjetiva, verticalizante, do narrador intelectual que conhece bem o que sabe e o que faz, e, como tal, já vigorando no especialíssimo terceiro cogito da consciência individualizante.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

O PIANO


(Foto de Liszt)

O piano

Rogel Samuel

Sim, Guiomar Novaes foi uma das melhores pianistas do Século XX e da
minha infância. Quando a Philips estava elaborando a coleção "Grandes
Pianistas", tentou inclui-la, mas esbarrou no problema da baixa
qualidade das gravações da Vox dos anos 20. Nelson Freire possui o
Steinway que pertenceu à grande dama. Segundo Freire, que está na
coleção - o único brasileiro na coleção - além de Guiomar, outros
brasileiros/as poderiam estar incluídos. Como Magdalena Tagliaferro e
Jacques Klein. Sou vizinho de um, Arthur Moreira Lima.
Quando eu era menino acordava com a vizinha tocando Chopin. Não tocava
mal. Meu pai foi meu primeiro e último professor de piano, que não toco.
Desde cedo não toco, ouço. Gosto de ouvir e sonhar. Sonhar é voar na
imaginação das paisagens sonoras. Não posso imaginar como seria um mundo
sem música. Não seria meu mundo. Não seria silencioso, pois o silêncio
também é música.
Meu pai viajava pelos grandes rios da Amazônia e me levava com ele. Às
vezes, entrava num lago, ancorava, e ali passava a noite, ao abrigo de
alguma tempestade. No Amazonas se chamava aquilo de lago, que se entrava
por um "furo", ligado ao grande Rio. Havia pássaros monstruosamente
belos como deuses coloridos, bailando entre as grandes árvores sagradas.
Antes da noite cair completamente, meu pai subia no teto da lancha e
tocava violino. O silêncio era tão que o violino soava nas estrelas.
Certa vez, ele viajou muito tempo com um adolescente meio índio, que
fazia de marinheiro. Durante aquele tempo ele estudava, diariamente, e
durante várias horas por dia, certa música de Bach. Muitos anos depois,
um dia ele chegou num vilarejo onde havia uma festa com alguns músicos
tocando. Um dos músicos se aproximou dele e perguntou: "Sr. Samuel, o
senhor não se lembra de mim?" Era o jovem marinheiro. "O Sr. ainda toca
aquela musiquinha?" e o homem tocou maravilhosamente Bach ao violão...
Tenho tudo que posso de Guiomar Novaes. Os melhores discos são com
Kemplerer. Ela fez sucesso naquela época de ouro da música mundial.
Estavam todos vivos, os grandes: Rubinstein, Schnabel etc.
Minha amiga U.A. diz que minhas crônicas são "crônicas de saudade de
Manaus". Ela me mandou um poema sobre seus 70 anos. Tomei um susto: não
podia acreditar. Sim, havia muitos discos de Guiomar Novaes na minha
infância. Assim como Bidu Sayão, cantando o terceiro poema de "La bonne
chanson", de Verlaine, que um dia traduzi livremente assim:


A lua branca
luzir no bosque
de cada ramo
parte uma voz
sob a folhagem...

Ó bem amada.
Lago reflete
profundo espelho
a silhueta
do colmo negro
o vento chora...
delírio, é a hora.
vasta e macia
tranqüilidade
sente descer
do firmamento
o astro irisa...
estranha é a hora.

domingo, 27 de novembro de 2011

 
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