segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

SE TU PERDESSES A BELEZA...









Genesino Braga




Se tu perdesses a beleza... e o olhar intenso e a fala musicalizada, - ficarias sendo, não a mutilação da Obra Perfeita, mas a transfiguração da Obra Perfeita.

A pacificação da carne ansiosa, a sombra de êxtase nos olhos áridos, a suave tristura de uma boca sem canções, - tudo acordaria em ti uma alma sensorial de superfícies brandas, com a reprodução calada dos ecos todos que afirmam a força e a energia da Criação.

Irias gravar, nas cicatrizes dos pensamentos apaziguados, a doçura das noites de veludo que abrandaram as tuas ânsias. Afloraria, na tua saudade, a memória das imagens recalcadas no clamor dos apelos, para que as sombras dos instantes imperecíveis se transfundissem no respeito humano que a integridade de teus desígnios obrigaria.

Então, feito milagre de transmigração, a singeleza de tua nova consciência daria à vida a excelsa explicação do teu amor. Seria a libertação da alma postiça que teu corpo vestia, ficando-lhe a delícia de poder absorver, para indulgência e redenção, as essências da beleza incorpórea.

Ascenderias à Perfeição! Decifrarias no perdão do teu corpo sem desejo, o imutável segredo da composição estética da vida. E o doloroso fundo da tua natureza melancólica teria a participação da felicidade imaterial.

... e uma outra espécie de formosura – a Harmonia Interior – surgiria em teu destino, como um fluxo de redenção espiritual...

Oh!, se tu perdesses a beleza...

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